28 de jun. de 2011

Deus oleiro e jardineiro: sobre seu cuidado, nossos ouvidos e nossas ações

Por Wallace de Góis Silva



Recentemente assisti a uma peça de teatro em que alguns vasos de barro representavam a vida de das pessoas, e as atrizes que os carregavam, contavam a triste história de suas personagens. Ao relatar o episódio de tristeza, atiravam os vasos no chão, que ilustravam bem a sensação do estilhaçar de seus sentimentos, do despedaçar da alma. História de mulheres traídas, de abusos na infância, homens religiosos que se entregaram ao adultério, falta de referenciais para a formação. A dinâmica do vaso revela a fragilidade do coração humano, bem como o esmero e a criatividade que seu Autor teve ao modelá-lo.

A palavra do Senhor em Jeremias é a própria presença de Deus (cf 1.4-10). E no texto escolhido, o profeta observava o oleiro "entregue à sua obra", o que revela a dedicação empregada no trabalho de modelar as peças de barro. Com muito cuidado, o oleiro fabrica seus vasos, fazendo girar a roda da máquina com seus pés, enquanto pressiona as palmas das mãos e os dedos na argila, empregando ora mais força, ora menos, agindo de acordo com o projeto que imaginou, mas tendo em vista a textura do barro, a temperatura, as condições.
Quando via que seu vaso não estava saindo como o planejado, por quaisquer que fossem as causas, amassava de novo o barro e reiniciava o processo, dando à argila molhada uma nova chance de se tornar um belo vaso.
Foi na observação desse trabalho que Deus falou com Jeremias e lhe ensinou algo maravilhoso sobre o cuidado de Deus, nossos ouvidos e nossas ações. Em outras palavras, a observação sensível das situações comuns da vida nos dá a oportunidade de aprender com o Senhor. O povo conhecia o trabalho das olarias e o processo de tratamento do barro, sabendo qual era o seu estado mais apropriado para fazer vasos de qualidade. De igual modo, Jesus se utilizou de parábolas do cotidiano de seu tempo para revelar verdades profundas. Especialmente na parábola do semeador, o Mestre faz distinção entre a boa terra e os solos inférteis, sendo aquela apta para dar frutos que permanecem e se multiplicam, e as outras, mesmo que deem frutos por um breve período, não sobrevivem às dificuldades.
Com essas duas mensagens, aprendemos que o cuidado de Deus em modelar os vasos, e as sementes da sua Palavra/presença são sempre perfeitos e pacientes, no entanto o sucesso deles em nossas vidas ações depende da nossa disposição e humildade para ouvi-los e aceitá-los e contribuir com eles.

Em seu cuidado, o oleiro aperta com maior força quando necessário, e com mais brandura se julgar ser esta a melhor ação. Entendemos com isso que certos “apertos” que a voz do Espírito provoca em nosso coração e as repreensões de amor que Ele nos dá, são necessários para nos lembrar de que dependemos das mãos de Deus para ganharmos forma. Expressa também que no processo de moldar nossas vidas, o Oleiro está o tempo todo a trabalhar, incansável, desde o dia em que nos criou do barro. Em todo momento Ele nos recria, fazendo-nos viver um pouco de seu plano inicial para a humanidade: a felicidade em Deus, o qual Ele mesmo concretizará em nós no porvir.
O Senhor nos modela com exímia habilidade, mas depende da qualidade de nossa essência para que sejamos belas expressões de sua arte. E isso o Senhor também providencia, oferecendo a nós a oportunidade de sermos “umidificados” pelo Espírito, e portanto, trabalhados com maior êxito. Da mesma forma, Ele como semeador de sua Palavra, de sua presença e cuidado para com o mundo, lança sobre nós a possibilidade de reproduzirmos seu amor, mas dependerá de nosso interesse e busca de maturidade para que sejamos bom barro para modelar e terra fértil para receber a semente e dar frutos.
Em Jeremias Deus condiciona seu favor ao fato de o povo dar ou não ouvido à sua Palavra; aceitar ou não ser condicionados/as e moldados/as para serem vasos de honra. Sua graça se manifesta na sempre aberta possibilidade de recomeço, de voltar à proposta de Yahweh (ou Jeová), que é a do Éden, e para isso faz-se necessário obedecê-lo e testemunhar o Deus verdadeiro perante as nações.
O Reino de Deus e sua justiça têm que ser modelados em nós, para que nós os levemos ao mundo. Sua presença deve ser tão marcante em nós, de modo que os traços do supremo Autor sejam visíveis em nossos atos e palavras, estendendo nossa mão a quem precisa e anunciando, às vezes sem palavras, mas com a postura de vida, a salvação. Deus tem que ter liberdade de nos moldar para que desejemos que outros sejam moldados, e para que como vasos de honra, sejamos instrumentos de transformação desse mundo, livrando nossos semelhantes da escravidão do pecado e contribuindo com uma nação que preze pela justiça, pela honestidade e pela paz.
Yahweh promete ser misericordioso para com aqueles/as que optarem em ouvi-lo, e adverte que o contrário também será considerado e terá suas consequências. Lembro-me da ocasião em que Deus põe dois caminhos para seu povo, e os aconselha a escolher a vida, para que vivam (Dt 30.19-20). Façamos hoje uma escolha pela vida, pelo caminho do Reino. Coloquemos nossos braços e pés ao serviço de Deus e os santifiquemos.

O Espírito Santo, simbolizado pela água que hidrata e amolece o barro, é quem pode nos transformar em boa argila e boa terra para sermos trabalhados/as por Deus. Nesse sentido, Ele cuida de nós, nos consolando e nos convence do pecado e da justiça, imprimindo em nós a face de discípulos de Cristo. No entanto, nós precisamos nos dispor para isso, precisamos ouvir sua voz com os ouvidos do coração. Por outro lado, a opção pelo mal trará com isso o castigo de Deus, que em muito se deve às próprias consequências da desobediência e à própria justiça de Deus com relação a quem pratica a maldade, seja no presente ou no último dia.
Pela graça de Deus podemos nos tornar agentes de justiça (e não de julgamento), pois nossas ações passarão a ser modeladas pela Palavra, pela presença de Deus. No poder do Espírito, receberemos a coragem e a autoridade necessária para sermos vasos de honra, carvalhos de justiça, árvores que produzam bons frutos...
Que tipo de barro temos sido? Do tipo maleável, flexível, ou do tipo rígido, ressecado? Quanto menos água, que é o Espírito Santo, deixarmos nosso ser absorver, mais doloroso e demorado será o processo de modelagem de nossas vidas. Isso demandará mais esforço e repetidas necessidades de ter que recomeçar. No entanto, se o solo de nosso coração se fizer fértil (portanto úmido), os frutos que de nós nascerão serão permanentes e incontáveis: "amor, a alegria, a paz, a paciência, a delicadeza, a bondade, a fidelidade, a humildade e o domínio próprio. E contra essas coisas não existe lei". (Gl 5.22,23, NTLH).
Destaco a palavra delicadeza. Ela não é sinônimo de feminilidade, não impedindo que os homens o sejam, e sim de cordialidade amável, atitudes de quem age com um coração repleto de amor, amor de Deus. O grande Oleiro e Jardineiro quer modelar nosso ser em forma de vaso de honra, para nele plantar sua semente e ver os frutos crescerem. Sendo assim, espera que nosso corpo, vaso de barro (pelo qual nós agimos, nos portamos; tornamos nossos sentimentos visíveis), seja uma expressão de nossa alma, na condição de terra fértil, onde será plantada a Palavra que traz paz, perdão e sede de justiça. Seremos assim testemunhas do cuidado de Deus para com a criação, da transformação espiritual e social, e da santidade de Deus, que vêm com o seu Reino.
Antes da estação dos frutos, que é o outono, as plantas dão flores (primavera). Que as mulheres e os homens sejam despertados para serem vasos de honra. Vasos enfeitados de flores que são sempre sinal de vida, do “bom perfume de Cristo”, o jardineiro ressurreto (Jo 20.15), e que anunciam a iminência de frutos. Amém.

Nenhum comentário: