Por Wallace de Gois Silva
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O quarto Evangelho, provavelmente, tenha sido escrito, pelo apóstolo João, entre os anos 70 e 95 d.C. Como testemunha ocular de Jesus, ele via-se compelido a completar o relato das boas novas começado pelos outros evangelistas. Porém, já nos primeiros parágrafos, percebe-se que João se diferencia notavelmente do estilo de Mateus, Marcos e Lucas (conhecidos como Evangelhos sinópticos, ou “vistos sob uma mesma óptica”). Os outros escritores fixaram a sua atenção nos atos e nos acontecimentos da vida de Jesus de um modo geral. João se aprofunda no significado do que Jesus fizera e dissera, desejando explicar a Pessoa e a missão daquele que veio revelar o Pai. O próprio evangelista explica o seu propósito: “(...) para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (20.31). É sobre este maravilhoso Evangelho que estudaremos hoje.
COMENTÁRIO
1. O VERBO SE FEZ CARNE (1.1-18)
“Verbo” era um termo de significado especial tanto para os gregos quanto para os judeus. Platão e outros filósofos usavam “verbo” (logos) no sentido de “mente divina”. Para os judeus, referia-se ao envolvimento ativo e pessoal de Deus no mundo. Deus era um mistério, até que decidiu se revelar. Falou uma vez e todas as coisas vieram a existir. Depois de falar por intermédio de profetas, Deus voltou a falar, e desta vez, sua Palavra - o “Verbo” – tomou forma humana e se chamou Jesus (v. 14). O Todo-Poderoso nos falou na única linguagem que podíamos entender: tornando-se um de nós. O escritor, no primeiro capítulo, afirma a existência de Cristo no princípio, sua coexistência juntamente com o Pai (v. 1,2), sua participação ativa na criação, como Deus (v. 3) e não como criatura.
O Evangelho segundo João foi escrito com o propósito de nos apresentar um Deus conhecido acima de tudo por seu amor sacrificial (3.16).
Traça o perfil deste Deus, revelado na pessoa de Jesus Cristo (1.18) que é muito diferente dos deuses vingativos e distantes das outras religiões. A primeira epístola de João também faz menção à manifestação do Verbo divino (1 Jo 1.1-3).
2. COISAS QUE SÓ LEMOS EM JOÃO
Os quatro evangelhos não são quatro histórias diferentes, mas narrativas distintas de uma mesma história, de um só “Evangelho” (esta palavra significa “boas notícias”); são quatro testemunhos da vida do Senhor Jesus, cada um com suas particularidades. O Evangelho de João é, sem dúvida, um livro muito profundo e espiritual, e não poderia estar em outro lugar, senão na Bíblia.
João consegue nos trazer grandes mensagens, numa linguagem bastante compreensível. Esta obra literária dá a impressão de ter sido escrita por um autor que teve muito tempo para refletir.
É uma literatura bastante simples, escrita com a intenção de levar o leitor a uma confissão de fé ativa em Cristo. É atribuído a este Evangelho uma grande notoriedade devido ao fato de trazer em seu conteúdo revelações mais amplas que Cristo dá sobre:
2.1. Sua Pessoa e atributos: Jesus se apresenta como sendo o suprimento de nossas mais profundas carências: “Eu sou o pão da vida” (6.35); “Eu sou a luz do mundo” (8.12); “Eu sou a porta” (10.7); “Eu sou o bom pastor” (10.11); “Eu sou a ressurreição e a vida” (11.25); “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (14.6) e “Eu sou a videira verdadeira” (15.1,5). Além disso, Jesus faz defesa à sua divindade (10.30-38; 12.45; 16.15 - ver ainda 1 Jo 5.20).
2.2. Sua missão vinda de Deus: no cap. 5, Jesus declara seis vezes consecutivas que foi enviado por Deus Pai – vv. 23, 24, 30, 36-38.
2.3. A obra do Espírito Santo, o Consolador: como hóspede permanente (14.16); ensinador (14.26); testemunha (15.26); o que convence do pecado (16.7,8); condutor da voz de Deus (16.13); o que glorifica a Jesus e aquele que o revela (16.14,15).
2.4. A paternidade de Jesus: Ele fala de Deus como “Pai” mais de cem vezes, como por exemplo, “Pai espiritual” (4.23), “o Pai que doa a vida” (5.21) etc.
Outro fator relevante são discursos e encontros descritos somente neste livro, como por exemplo: a conversa com Nicodemos (3.1-21); com a mulher de Samaria (4.1-29); o discurso na festa dos tabernáculos (7.14-39); a série de instruções privadas aos discípulos e as palavras consoladoras acompanhada de oração intercessora (caps. 14-17); o encontro com os discípulos no mar da Galiléia (cap. 21) e outros.
João registra oito milagres, incluindo a ressurreição do Senhor, como prova da divindade de Cristo, seis deles citados somente neste Evangelho: a água transformada em vinho (2.1-11); a cura do filho do funcionário do rei (4.46-54); a cura de um paralítico no tanque (5.1-9); o cego de nascença (9.1-7); a ressurreição de Lázaro (cap. 11); a segunda pesca milagrosa (21.1-6).
Nos capítulos 7 a 11, lemos das controvérsias geradas pela manifestação da natureza divina de Cristo entre os fariseus, bem como da descrença por parte deles (8.22; 10.19,20) e até mesmo de seus próprios irmãos (7.3-5). Porém, a fé de seus discípulos fora fortalecida por milagres como os já citados.
Dos capítulos 12 a 17, João nos apresenta Jesus mais distante das multidões e mais próximo de seus discípulos, a fim de prepará-los para o choque que teriam com a sua crucificação. Depois regressa a Jerusalém onde entra triunfalmente para cumprir a sua missão (12.20,21; 13.1).
O evangelista descreve os dolorosos momentos finais de Jesus nos capítulos 18-19. Já no final de sua narração, João destaca, nos caps. 20 e 21, a ressurreição e as últimas aparições do Senhor Jesus.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Louvamos a Deus por ter feito tanto em tão pouco espaço. É uma pena que muito do que está escrito não receba a devida atenção, muito é esquecido e outra parte é utilizada como pretexto para questões e controvérsias duvidosas. Apesar disso, sabemos que o Jesus descrito em João, e nos demais Evangelhos, continua o mesmo hoje e para sempre (Hb 13.8)!Lição publicada na Revista de EBD de Adultos da ICPB,
Ano XLIX, nº106, 4º Trim. de 2007
Ano XLIX, nº106, 4º Trim. de 2007
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